Aos 20 anos, o cearense Moisés Rocha vive uma experiência que, até pouco tempo, parecia distante da realidade da família: desde o início de agosto, ele está nos Estados Unidos, onde realiza intercâmbio na Universidade de Illinois durante a graduação em Direito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Natural de Itapajé, Moisés foi aluno da Escola Estadual de Educação Profissional Adriano Nobre, que é considerada a quarta melhor escola da rede pública no Ceará, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025.
O jovem deixou o Estado aos 18 anos para estudar no Rio de Janeiro. A oportunidade de chegar aos Estados Unidos faz parte do programa de internacionalização da graduação, resultado de uma trajetória construída a partir da escola pública e de medalhas em olimpíadas científicas.
Moisés
foi duas vezes consecutivas medalhista de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática
das Escolas Públicas (OBMEP) e, ainda no Ensino Médio, participou do projeto do
Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC), da FGV.
Por
meio do programa, alunos de escolas públicas com alto desempenho acadêmico são
selecionados e recebem preparação para disputar uma vaga na instituição. Depois
de aprovado no vestibular, Moisés conquistou gratuidade integral no curso de
Direito e auxílio financeiro para se manter no Rio de Janeiro durante a
graduação.
Durante o curso, Moisés passou a buscar uma oportunidade de intercâmbio. A FGV possui programas com universidades estrangeiras, e os estudantes podem participar do processo seletivo a partir do sexto período.
A seleção interna da faculdade possibilitou a ida para os Estados Unidos, e a parceria entre as instituições também garantiu parte significativa dos custos do intercâmbio. Pela seleção, Moisés recebeu uma bolsa que cobre cerca de dois terços do valor total.
“Um terço do custo ela não cobre. Então eu já estava planejando esse intercâmbio há alguns anos, já tinha uma certa reserva em dólar. Meus pais também já tinham uma certa reserva e aqui na universidade eu também tenho a opção de trabalhar em serviços do campus”, dimensiona.
Moisés permanece nos Estados Unidos até dezembro e pode renovar a permanência para ficar até junho do próximo ano. As disciplinas cursadas no exterior também podem ser aproveitadas na graduação no Brasil.
A
universidade escolhida tem forte relação entre Direito e Economia, área que se
aproxima do projeto profissional do estudante. No futuro, ele pretende atuar
como advogado nas áreas tributária e empresarial.
Primeiro
da família a sair do Estado
A primeira grande mudança aconteceu logo depois da conclusão do Ensino Médio, em janeiro de 2024. Até então, Moisés nunca havia saído do Ceará. A decisão de aceitar a oportunidade de estudar no Rio de Janeiro significou também o primeiro contato da família com uma realidade muito diferente daquela vivida no interior.
"Minha família nunca tinha saído nem do Nordeste. Eles saíram do Nordeste a primeira vez pra me visitar no Rio”, relata.
A distância também foi emocional. Moisés conta que precisou insistir para que os pais permitissem a mudança e lembra da reação do pai ao perceber que o filho seguiria um caminho que, até então, parecia muito distante da realidade da família.
“Nunca
tinha saído do Ceará, mas eu bati o pé e falei para os meus pais: ‘Eu não vou
deixar a oportunidade passar, eu vou agarrar, eu vou para o Rio e eu vou sonhar
mais fundo’. Foi a primeira vez que eu vi o meu pai chorando na minha frente”,
lembra.
A história do pai também é uma das principais inspirações para o estudante. Vindo de uma família humilde do sertão de Itapajé, ele deixou a escola ainda na sexta série e foi criado pela mãe depois de perder o pai aos sete anos. Já adulto, decidiu retomar os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursou Direito e, aos 50 anos, conquistou a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Meu
Deus, se meu pai tem 50 anos e está fazendo isso, por que eu não posso fazer
com 20? Indagou Moisés
Bolsa
da FGV abriu caminho para intercâmbio
O estudante chegou à FGV por meio do programa Seleção de Talentos, desenvolvido pelo Centro para o Desenvolvimento da Matemática e Ciências (CDMC).
Criado em 2017, o projeto busca identificar jovens talentos de escolas públicas de diferentes regiões do Brasil, especialmente estudantes com excelente desempenho acadêmico e medalhas em olimpíadas nacionais. Os selecionados são convidados a participar do vestibular da FGV para cursos como Matemática Aplicada, Ciência de Dados e Inteligência Artificial, Ciências Econômicas, Administração, Ciências Sociais, Direito e Comunicação Digital.
Moisés foi um dos estudantes beneficiados pela iniciativa. A preparação oferecida pelo programa e, segundo ele, ajudou a reduzir a diferença de condições entre estudantes de escolas públicas e candidatos de todo o País. Após a aprovação, o estudante passou a contar com gratuidade integral durante os anos do curso, além de um auxílio mensal para se manter no Rio de Janeiro.
Ao
longo dos cinco anos, entre a gratuidade e o auxílio, o benefício representa
cerca de R$ 600 mil, conforme o estudante.
Para ele, além da formação acadêmica, o ambiente da instituição foi importante para ampliar os horizontes e conviver com estudantes de diferentes regiões que tinham trajetórias semelhantes. “Se você é o melhor do lugar que você está, você está no lugar errado. Você tem que sempre estar em lugares que as pessoas são muito melhores que você, que é pra você aprender com as pessoas”, afirma. A informação é do Diário do Nordeste.

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